Tecnologias para a inclusão – I

O Plano Tecnológico da Educação (PTE) conseguiu, sem dúvida, catapultar Portugal para os rankings de tecnologia por metro quadrado, no rácio alunos/computadores e nas infraestruturas tecnológicas que equipam as escolas.

No entanto, a pergunta que importa fazer é se o PTE contribuiu para uma escola onde se aprende mais e melhor, onde os professores utilizam estratégias adequadas, eficientes e eficazes, onde os alunos trabalham com mais afinco e onde todos se sentem parte de um projeto empolgante de que depende o futuro. Importa ainda perguntar se contribuiu para uma escola mais inclusiva, no acesso aos media, na sua compreensão e apropriação e na sua utilização para comunicar e produzir sentidos.

A resolução do Conselho de Ministros n.º 137/2007 afirma uma decisão firme de “colocar Portugal entre os cinco países europeus mais avançados na modernização tecnológica do ensino em 2010”. Também lá está escrito: “A escola será assim o centro de uma rede de projetos direcionados para o que realmente importa: aprender e ensinar mais e melhor, os professores e os alunos”. Mas, quando percorremos o Anexo I encontramos como objetivos: rácio de dois alunos por computador, um videoprojetor por sala, um quadro interativo por cada três salas, etc.

O PTE foi um plano centralizado. Pode argumentar-se que desta forma o Orçamento do Estado economizou milhões. Terá sido?

Se o mesmo dinheiro tivesse sido atribuído a cada Agrupamento de Escolas para que estas, dentro de orientações flexíveis, pudessem criar os seu próprios projetos pedagógicos de utilização das tecnologias, planificando os seus investimentos em consonância com eles, certamente que o retorno final do investimento teria sido superior.

Um plano centralizado tem dificuldade em se adaptar às especificidades de cada escola. Talvez uma preferisse investir mais em software, ou em formação, e menos ou mesmo nada em videovigilância; talvez outra optasse por dispositivos ultra portáteis e soluções baseadas na Internet. Teríamos experiências muito diversificadas. Os professores sentir-se-iam valorizados e envolvidos num projeto com as cores da própria escola. O Estado tem o dever de financiar as iniciativas das escolas e não limitar-se a lançar planos diretores, tocando a marchar.

Do ponto de vista económico, uma tal abordagem iria, naturalmente favorecer o empreendedorismo local e as pequenas e médias empresas, em vez de favorecer, apenas, um grupo restrito.

A este propósito, convém estar atentos aos resultados do estudo “navegando com o Magalhães” , em fase final na Universidade do Minho, sobre a iniciativa “e-Escolinha” que distribuiu pelas crianças do 1.º ciclo cerca de 400.000 computadores Intel ClassMate. Que impacto teve esta distribuição massiva na literacia digital das famílias; que impacto teve nas aprendizagens das crianças e nas práticas pedagógicas em sala de aula?

Regresso ao futuro: uma escola inclusiva nos anos 80

Alunos do 1º ano trabalhando com computador Spectrum

Alunos do 1º ano trabalhando com computador Spectrum, Escolas Anexas - Coimbra anos 80

Nas escolas Anexas ao Magistério Primário de Coimbra decorreu, nos anos 80, uma experiência denominada “Ensino em equipa com microcomputadores”. Uma sala com seis microcomputadores, primeiro Spectrum, depois Olivetti e Amstrad; impressoras, primeiro térmicas, depois de agulhas; máquina fotográfica para fazer diapositivos, projetor de diapositivos, projetor de opacos, imprensa de Freinet, duas máquinas de escrever, lápis de cor e tintas de qualidade, cavalete, marcadores, escantilhões, réguas, esquadros, compassos, carimbos, flautas e instrumentos de percussão, jogos de xadrez, barro e plasticina, mesas de vários tamanhos e feitios, tapetes e almofadas.

Não havia manuais. Os pais não tinham que comprar qualquer material escolar, livros, cadernos, lápis, canetas. Contribuíam antes para um fundo escolar que comprava o material da melhor qualidade para todos. Em vez de 25 manuais iguais era possível comprar 25 livros diferentes para a biblioteca da sala.
Os manuais iam sendo feitos por alunos e professores e ficavam prontos no fim do ano, juntamente com outros registos: livros de histórias, o jornal da sala, o livro do passeio, o livro das plantas, quadros, cartazes, diaporamas, encenações teatrais, registos os mais variados, nos mais variados suportes.

Quebrou-se a regra sagrada: uma turma – um professor. Aqui era uma turma, dois professores, duas salas + um espaço de trabalho. A turma oscilou ao longo dos anos entre os 25 e os 38 alunos. Uma das salas era a sala dos computadores e a mini biblioteca, enquanto a outra sala era mais convencional; havia ainda outro espaço para trabalhos de grupo e pinturas. Na sala dos computadores, as crianças elaboravam textos com o processador de textos, normalmente relatos de vivências, notícias, histórias… Aprendiam a programar computadores, através da linguagem LOGO. Trabalhavam com a imprensa de Freinet e desfrutavam dos vários livros da biblioteca sentados em almofadas.
Cada criança trabalhava em média duas a três horas por semana com o computador.

Desta experiência, destaco como mais relevantes os seguintes aspectos, que continuam válidos e desafiantes:

  • Trabalho de equipa a nível de professores (dos meus alunos aos nossos alunos).
  • Atividades diversificadas com interesse genuíno para todos.
  • Reinvenção criativa do espaço físico e dos tempos escolares.
  • Trabalho planeado e integrado. O trabalho nos computadores ou na imprensa de Freinet, ou ainda na elaboração de cartazes e pinturas, bebia todo da mesma fonte e concorria para os mesmos objetivos. Não são trabalhos paralelos, desconectados, mas concorrentes. Não são um prémio ou um entretenimento, mas um estímulo para todos, numa situação de permanente interação e ligação à vida real de cada um e ao mundo circundante.

Neste espaço, conviveram alunos da elite, alunos carenciados, alunos sobredotados, alunos com dificuldades de aprendizagem e com necessidades educativas especiais. Estavam disponíveis uma série notável de tecnologias novas e antigas. No entanto, o valor deste trabalho pioneiro, residiu, na minha opinião, não nas tecnologias disponíveis, mas nas formas de organização da aprendizagem que permitiram criar um espaço de aprendizagem inclusivo com sucesso para todos, independentemente das capacidades de cada um; um espaço onde dava gosto trabalhar; um espaço onde tecnologias novas e velhas concorriam igualmente para o sucesso e a inclusão.

Finalizaria este apontamento do passado referenciando algumas dicas para inventar o futuro que nos vêm do Futurelab, mais concretamente do projeto “Beyond Corrent Horizons” , do departamento “Children, schools and families”:

  • E se as turmas tivessem alunos de várias faixas etárias (pré-escola, ensino básico, ensino secundário, ensino superior, incluindo mestrandos e doutorandos)?
  • E se houvesse vários professores em cada sala de aula?
  • E se educássemos as crianças atendendo às suas reais necessidades em vez de as prepararmos para os hipotéticos empregos do futuro?
  • E se reinventássemos o desenho das escolas balançando a aprendizagem de competências e conteúdos?

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Este tema está ser abordado no ciclo de conferências Questões-Chave da Educação’12 – As Novas Tecnologias, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, nos dia 3, 4 e 5 de dezembro 2012, respetivamente no Porto, Leiria e Lisboa.




Colocado no dia: 3 Dezembro 2012 às 23:39

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Artigo escrito por: Secundino Correia

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